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domingo, 22 de julho de 2012

O Nordeste é primitivo, inculto, burro? Para a TV, sim.

Rinaldo de Fernandes - ESPECIAL PARA O POVO

Nordeste na TV: um espelho primitivo
O professor Rinaldo de Fernandes, da Universidade Federal da Paraíba, questiona a insistência da TV em reproduzir o nordestino como um tipo jocoso, bruto ou marcadamente sentimental

Ano após ano, década após década. Na TV o nordestino é sempre o mesmo, com seus “visses” e “oxentes”, que, realçados, imprimem o tom jocoso. A fala, os gestos e sentimentos de personagens que representam nordestinos são sempre risíveis, rebaixados, já não pelas tintas, mas pelas câmeras da galhofa.

Cena da novela Gabriela
A imagem do nordestino na TV é quase sempre a de um indivíduo sentimental, espontâneo, sem inteligência, sem poder de discernimento das coisas. Ou então áspero, bruto, vestido num gibão, devotado às artes da peixeira e do bacamarte ou ainda a uma religiosidade fanática, ofuscante. Não passamos disso. E mesmo que a região se desenvolva, tenha gente preparada, que estuda, que cria cultura e conhecimento de qualidade. Não, não importa para os ideólogos da aspereza, da tipificação imbecilizadora, pequena, menor.

Graciliano
O Nordeste é primitivo, inculto, burro? Para a TV, sim. Mas inculto e inopioso é quem monta um quadro assim, quem se apega ao cômico barato, ao lixo das representações. Com todo respeito a Jorge Amado, que é um bom autor, mas também um tipificador nato, por que a TV não procura adaptar, com a competência que lhe é própria, um Graciliano Ramos?

Graciliano, em Vidas secas, faz uma representação da miséria do camponês nordestino sem ser tipificador, sem folclorizar. Faz o leitor pensar e se sensibilizar com uma situação real, historicamente dramática. Não desenha estereótipos. Em São Bernardo, idem, é implacável na representação do capitalismo adentrando o Nordeste e alterando a ordem da região. Angústia, com um protagonista dilacerado e com uma técnica sofisticadíssima e original de monólogo interior, é para alguns o mais importante romance brasileiro do século XX. É de uma densidade e força arrebatadoras, pondo Graciliano perto ou mesmo ao lado de um Joyce ou de um Faulkner. Angústia internacionaliza nossa literatura naquilo que ela tem de mais consistente. Graciliano tem uma narrativa profundamente inteligente. Porém, por representar um Nordeste que contorna ou escapa ao típico, não importa à TV.

Ao meu filho, hoje com 4 anos, recomendarei que não veja novela ou série de TV que represente nordestino sem que antes eu lhe mostre o que vai ser explorado no enredo. Sem que antes eu o prepare. Quero que meu filho cresça com autoestima. Porque é assim mesmo. A TV funciona, continuamente, para tentar baixar a nossa estima. Mas, asseguro, só baixa a dos desatentos. Ou a dos que consentem.

E por que a TV insiste em nos reproduzir apenas como tipos jocosos, brutos ou marcadamente sentimentais? Por desinteligência, aposto. Ou por cretinice, suponho.

Rinaldo de Fernandes é autor de 10 livros, entre eles o romance Rita no Pomar (indicado para o Prêmio São Paulo de Literatura/2009). Doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp e professor de literatura na Universidade Federal da Paraíba

4 comentários:

  1. E não é só isso... E, esse "bullying" total da "queridinha da hora" dessa Zorra com a Janete à cada minuto? As transsexuais devem estar achando uma maravilha o papel dessa Valéria debochada, recalcada, mal humorada, já que não se vê nenhuma reclamação... Nem a Dilma reclama nada da caricatura dela de maquinista! De resto, a "Vênus Platinada" da globobocalização faz todo mundo rir à vontade, enquanto ela sorri faturando alto, lá de cima do cangote de todo mundo... Regula não, Dilma... você ainda se arrependerá amargamente de ter ido à festa do aniversário da Folha, e até de feito discurso... O povo até pode ser feito de bobo, mas a Globo "não é mole, não"... Abre o olho, Dilma, regula...

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  2. FORA DILMA! FORA LULA! FORA SERRA! FORA FHC! FORA PT! FORA PSDB! FORA PMDB! FORA PCDOB! FORA PSB! VOLTA DITADURA!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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  3. No Marco Regulatório, a diretriz número 12 faz respeitar a diversidade cultural do nosso país, não deixando que esse preconceito maquiado esteja cada vez mais presente na nossa TV, como foi bem colocado pelo texto do professor Rinaldo. Trago aqui outro exemplo, e que considero mais ferino: a novela "Cheias de Charme" (empreguetes). O roteiro dela é recheado de preconceitos mascarados com o "bom-humor" sem graça dos roteiristas da Globo. Imagino o tanto de crianças e jovens chamando suas secretárias do lar de "empreguetes", inconscientes ou não da acidez presente nesse termo. Imagino também a quantidade de piauienses e paraenses revoltados com a satirização tão malfeita, e de mau gosto, dos seus conterrâneos e que foi interpretada pelas personagens de Titina Medeiros (Socorro) e Cláudia Abreu (Chayene).
    REGULAMENTA DIIILMA!!!

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  4. O brasileiro adora rotular. A mídia de massa sabe disso, e da o que eles querem com essa caricaturização do nordestino.

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